Espiritualidade Monfortina

Síntese de Espiritualidade Monfortina

O lema de são Luís Maria de Montfort, que repetiu mais de 150 vezes em seus escritos, era "Só Deus (Dieu seul, no francês, sua lingua materna). Este lema manifesta que para ele, Deus é o único valor absoluto. Só Ele da sentido a tudo o que existe. Mas também manifesta que só Deus é suficiente: "só Deus basta" (Cant 28, 23). Se requer, pois colocar no contexto do absoluto de Deus tudo o que ele dirá da história da salvação e de nossa vida pessoal. Quando são Luís Maria fala do lugar dos humanos na criação, começa por Deus e seu desígnio no qual ele vê o amor. Pode-se distinguir no pensamento de são Luís um movimento descendente e também um movimento ascendente.

 

Um movimento descendente

Para são Luis Maria de Montfort tudo começa pelo Pai, cujo único desejo é partilhar seu amor à criação. Cria o ser humano para que seja a imagem perfeita de sua beleza e perfeição: "Sua admirável obra mestra, a imagem vivente de sua beleza e perfeições, o vaso maravilhoso de suas graças, o tesouro admirável de suas riquezas e seu único representante na terra" (ASE 35).

 

Sabedoria de Deus

Esta afirmação concorda com a interpretação da Sagrada Escritura e a de numerosos autores espirituais. Mas o que lhe distingue de outros autores é que quando fala deste amor de Deus e do que Deus deseja para a humanidade, recorre aos livros sapienciais do Antigo Testamento, particularmente o livro da Sabedoria e o dos Provérbios. Considera a Sabedoria como uma pessoa que proclama: "eu estava junto a Deus e ditava leis com precisão tão perfeita e com variedade tão agradável, que tudo era como um jogo com o qual me divertia e comprazia ao meu Pai. (Prov 8, 30-31). A Tradição cristã identificou a esta pessoa da Sabedoria como si fosse Jesus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho. São Luís Maria fez desse nome de Jesus Cristo, Sabedoria divina, eterna e encarnada, seu nome preferido. De fato, esta Sabedoria de Deus é quem, segundo a Escritura, ama aos humanos com um amor infinito e deseja, em troca, ser amada. "Esta eterna e soberanamente amável beleza tem desejo tão vivo da amizade do homem, que para conquistá-lo escreveu expressamente um livro (o livro da Sabedoria), manifestando nele suas excelências e o desejo que tem dos homens. Livro que é como uma carta da amante a seu amado para ganhar seu afeto. Os desejos possuir  o coração do homem que manifesta nele são tão apremiantes, a solicitude que revela para ganhar sua amizade é tão delicada, suas chamadas e anseios são tão amorosos, que ao escutá-la falar se diria que não é a soberana do céu e da terra e que para ser feliz necessita dos homens (ASE 65)

 

O pecado e a salvação

São Luís reconhece também que ainda que criados para ser  "a imagem vivente da beleza de Deus" os seres humanos deixaram que o pecado transtorne o plano de Deus. "Mas, ó desgraça suprema!...Este vaso de Deus se quebra em mil pedaços! (ASE 39). Então, Deus que ama sempre a humanidade, se propõe livrá-la do estado de prostração em que se encontra: "Me parece ver a esta amável soberana convocando e reunindo por segunda vez a Santíssima Trindade para decidir a restauração do homem, como tinha feito na criação (ASE 42), e a Sabedoria eterna se oferece para salvar a humanidade: "proceder assombroso! Amor incompreensível levado até o extremo! A amável e soberana princesa se oferece ela mesma em holocausto ao Pai para satisfazer sua justiça, aplacar a sua cólera, livrar-nos da escravidão do demônio e das chamas do inferno e merecer-nos uma eternidade feliz" (ASE 45). A encarnação é então decretada e a "Sabedoria Eterna" se faz a "Sabedoria Eterna e Encarnada". Para são Luis como para a maioria dos membros da chamada "Escola Francesa de Espiritualidade", a Encarnação é o mistério central do desígnio de Deus para a salvação da humanidade. Neste mistério se revelam não só o amor de Deus pelos seres humanos, mas também o meio que lhes permitirá beneficiar-se dos frutos deste desígnio.

 

A Encarnação

Para são Luís de Montfort, a Encarnação é não só um acontecimento (oFilho de Deus que se faz Homem), senão uma realdiade nova para a humanidade e para toda a criação. É um estado que contém tudo o que Jesus Cristo fez e cumpriu como Homem-Deus. A Encarnação contém o "mistério pascal" - a morte e a ressurreição de Cristo - que sela nossa salvação. Considera toda a vida de Cristo como a manifestação de seu amor e a realização do desígnio de Deus. Mas em todo este conjunto contempla o sacrifício da morte de Cristo, a Cruz, como "o maior segredo do Rei, mistério mais sublime da Sabedoria Eterna" (ASE 167). "A razão mais poderosa que pode nos impulsar a amar a Jesus, a Sabedoria Eterna, é, a meu juízo, a consideração as dores que quis padecer para mostrar-nos seu amor" (ASE 154). A cruz, mais que o castigo que Deus impôs a Cristo em nosso lugar é o testemunho definitivo de seu amor por nós. Este amor é o que constitui a vitória. Ainda que são Luís não fala quase da Ressurreição de Cristo, a cruz é para ele o triunfo do amor sobre o pecado e o ódio, e da vida sobre a morte. 

 

O lugar de Maria

No mistério da encarnação, são Luís vê também o posto de Maria. Ainda que Deus era livre para escolher o meio que quisesse para realizar seu desígnio de salvação, "este grande Senhor sempre independente e suficiente a si mesmo, não tem nem teve nenhuma necessidade da Santíssima Virgem para realizar sua vontade e manifestar sua glória" (VD 14). Ele jugou bom servisse do consentimento livre de Maria e de sua docilidade ao Espírito para que se realize a Encarnação e, por ela, a salvação da humanidade. "Tendo querido Deus começar e terminar suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem" (VD 15). Quando Maria da seu livre consentimento, representa por dizer assim, a humanidade de todos os séculos, que por Ela da seu consentimento. Ela se converte assim no "tipo" ou figura da Igreja "assembleia de todos os seres humanos que entram no mistério de salvação". São Luís desenvolverá este tema muito mais amplamente quando dirá como essa salvação deve se realizar para toda a humanidade.

Este movimento descendente do amor de Deus manifestado na Encarnação da Sabedoria eterna e encarnada pela salvação da humanidade, graças à cooperação da Virgem Maria, e que culmina com o triunfo da Cruz de Cristo, é para nós um convite de Deus a aceitar e acolher seu desígnio de amor. Mas é necessário que demos uma resposta livre.

 

Um movimento ascendente

São Luís Maria afirma que nossa resposta ao chamado de Deus deve ser conforme à maneira como esse chamado se manifesta e se realiza na história. Como ele mesmo afirma, Deus não muda: "É de crer que não mudará jamais de proceder, é Deus, e não mudará nem em seus sentimentos, nem em sua maneira de agir" (VD 15, Rm 11, 29). Como Deus se faz Homem ao encarnar-se seu Filho, estamos convidados a "revestir-nos da natureza divina" transformando-nos em imagem de Jesus Cristo, para voltar a encontrar assim o estado que nos fazia a "imagem vivente da beleza de Deus" (ASE 35). Dito de outra maneira, necessitamos  chegar a ser conformes à Sabedoria eterna de Deus, manifestada em Jesus Cristo, ou como diz Montfort, estamos convidados a "adquirir e conservar a Divina Sabedoria" ( ASE 203).

 

A busca da Sabedoria

A felicidade se encontra na aquisição da divina Sabedoria. No livro Amor da Sabedoria Eterna, são Luís considera outras classes de sabedoria (meios para conseguir a felicidade) e as despreza todas porque são ineficazes e indignas do chamado sublime dirigido à humanidade (capítulo 7). Somente respondendo com amor ao amor de Deus e nos convertendo assim em imagem de Jesus Cristo, podemos conseguir nossa finalidade. Mas para amar a Cristo, Sabedoria eterna e encarnada, necessitamos primeiro conhecê-lo. "se pode amar ardentemente o que somente se conhece imperfeitamente?"...Conhecer a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, é saber o suficiente. Saber tudo mas não conhecer-lhe, é não saber nada" (ASE 8,11). Estamos, pois, convidados a conhecer a Jesus Cristo, Sabedoria de  Deus, e então, amar o que aprendemos conhecer e, finalmente, a nos conformar a sua imagem. Com muitos outros na Igreja, são Luís chama a esse processo Consagração. Esse processo começa no Batismo que, como diz são Paulo, nos "incorpora" a Cristo.

 

Jesus o único salvador

Jesus Cristo é o fim para o qual tendemos. Em todos nossos esforços não pode existir nenhum outro fim: "O fim último de toda devoção é Jesus Cristo, Salvador do mundo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Do contrário, teríamos uma devoção falsa e enganadora. Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim de todas as coisas... De fato, só em Cristo habita realmente a plenitude da divindade e todas as demais plenitudes de graça, virtude e perfeição. Só em Cristo fomos abençoados com toda a benção do Espírito. "Porque Ele é o único Mestre que deve ensinar-nos, o único Senhor de quem devemos depender, o único Modelo a quem devemos assemelhar-nos" (VD 60-61). Jesus Cristo é o único Senhor. Nosso único objetivo é estabelecer seu reinado no mundo.

 

O caminho de Maria

Como diz são Luís, necessitamos tomar o mesmo caminho escolhido por Deus. Este caminho que tomou seu amor para vir até nós passou por Maria. Em nossa ascensão até Deus precisamos seguir o mesmo caminho: "Por meio da Santíssima Virgem Maria veio Jesus Cristo ao mundo, e por meio d'Ela deve também reinar no mundo" (VD 1). No entanto é necessário alertar que Maria não é o fim último. O fim último é o Reino de Deus. A devoção a Maria é um meio, o mais excelente, para chegar à meta "o melhor meio e o segredo mais maravilhoso para adquirir e conservar a divina Sabedoria" (ASE 203), precisamente porque Maria foi o melhor meio escolhido por Deus para realizar seu desígnio de Amor.

 

A perfeita devoção à Maria ou a consagração total

A devoção à Maria será "o maior meio para adquirir e conservar a divina Sabedoria" desde que seja autêntica ou verdadeira, e não falsa, superficial ou imaginária. São Luís reconhece que há muitas formas de devoção à Maria que respondem aos critérios da verdadeira devoção, mas defende que entre todas há uma que é "caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar a união com o Senhor" (VD 152). Consiste em consagrar-se totalmente a Maria para consagrar-se totalmente a Jesus Cristo. A finalidade última não é, pois, a consagração a Maria mas a Cristo. Contudo, essa é a maneira mais segura para realizar essa consagração, que ele considera idêntica à consagração de si mesmo no Batismo, mas feita de uma maneira mais pessoal e consciente. A razão pela que privilegiou a Maria como caminho que conduz a essa consagração é porque, Maria foi o caminho escolhido por Deus para testemunhar-nos seu amor, porque Maria é a criatura consagrada por excelência a Deus, em seu Filho, e é para nós modelo de consagração. Ela é a figura da Igreja, do conjunto dos discípulos de Cristo, posto que foi a perfeita discípula e imitadora de seu Filho.

A forma que propõe de devoção a Maria, e por ela a Cristo, se chama às vezes consagração, aceitando que em sentido estrito consagração não pode aplicar-se mais que em relação a Deus. Também diz que prefere falar somente de consagração à Cristo Sabedoria eterna e encarnada, pelas mãos de Maria. Mas cita outras expressões que hoje também se poderiam empregar. O que também se pode dizer da expressão "santa escravidão", com a que ele mesmo designa durante sua vida esta devoção. Em nossos dias essa expressão pode parecer  chocante.

  

O segredo de Maria

Como sabia muito bem que esta forma de devoção não era conhecida de imediato por todos, são Luís a considerava como um "segredo". Exigia um estudo mais profundo para perceber seu valor, assim como a graça acolhida como fidelidade. Mil vezes feliz aquele a quem o Espírito Santo revela o segredo de Maria (SM 20).

 

A Cruz

Outro segredo em que insiste para garantir uma conformidade real com Cristo e a aquisição da divina Sabedoria, é o segredo da Cruz. Assim como a Cruz de Cristo foi a vitória maior da Sabedoria divina e a maior prova do amor de Deus por nós, assim também a aceitação da Cruz em nossas vidas constitui um meio seguro para entrar no movimento que nos leva a Deus. Trata-se da aceitação do sofrimento inevitável quando se busca permanecer fiel aos compromissos com Deus, e da aceitação de outras formas de sofrimento que podem ter como efeito purificar nossa consciência e nossas intenções, por exemplo a mortificação. A Cruz é a insígnia, o distintivo e arma de todos os eleitos (ASE 173). A mortificação é um dos meios essenciais para adquirir a Sabedoria divina (ASE 194-202). São Luís jamais nunca considera a Cruz como algo negativo mas sempre como companheira e consequência do amor, tanto no movimento descendente do amor de Deus em direção a nós como no movimento ascendente de nosso amor em direção a Ele.

A espiritualidade monfortina poder-se-ia resumir com a fórmula: "SÓ A DEUS, POR MEIO DE CRISTO SABEDORIA, NO ESPÍRITO SANTO, EM COMUNHÃO COM MARIA, PELO REINO DE DEUS".