VERDADEIRA DEVOÇÃO

 

Considerações sobre a consagração a Nossa Senhora (Pe. Antonio Elcio de Souza, em MARIA NA LITURGIA E NA PIEDADE POPULAR, Paulus 2017)

Dentre as muitas manifestações da piedade popular à Virgem Maria está a “Consagração a Nossa Senhora”, uma prática que permanece viva em nossos dias: junto ou próximo ao Batismo das crianças, nas mais variadas formas de momentos de oração, no final de celebrações e, sobretudo, entre muitos jovens, cresce uma busca pela consagração através da “escravidão a Maria”, e outras formas. Por isso é importante buscar o autêntico significado hoje, no contexto da transmissão da fé e de iniciação à vida cristã, dessa manifestação de piedade popular e o seu lugar no culto cristão; considerando que, no rito do batismo atual, já não se denomina consagração, mas ato de devoção, e que se encontra fora da celebração litúrgica.

Olhando para a “consagração a Nossa Senhora”, mesmo entre os católicos, encontramos críticas a ela, pois já fomos consagrados a Deus no batismo; mas há muitos que buscam a consagração como uma maneira de viver a sua religiosidade e até mesmo entre os pastores da Igreja, como S. João Paulo II, que foi um grande propagador da consagração à Virgem (Totus Tuus).


2. Em busca de uma fundamentação bíblica

No ANTIGO TESTAMENTO, a consagração estava expressa na Aliança. O povo escolhido vive a sua relação com Deus a partir da Aliança, que o torna um povo consagrado ao Senhor, isto é, que pertence ao Senhor e relacionado com seu poder e sua santidade: “Agora, se realmente ouvirdes minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida entre todos os povos. Na realidade, é minha toda a terra, mas vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. São essas as palavras que deverás dizer aos israelitas” (Ex 19,5-6).

No NOVO TESTAMENTO , a santificação é uma iniciativa divina, assim os cristãos não se consagram por si mesmos, mas, em virtude do batismo, são consagrados a Deus. Pelo batismo, são entregues ao Senhor ressuscitado, e a essa consagração que os une a Cristo e os faz participantes do mistério da sua morte e ressurreição (Rm 6, 3-5) deve corresponder uma consagração vital a Deus expressa em termos de culto existencial (Rm 12,1).

A figura da VIRGEM MARIA está ligada de forma profunda à Aliança e á Consagração do povo de Deus. Maria é a “consagrada” por Deus que se doa inteiramente a Ele, é Aquela que se coloca ao serviço da Aliança com Deus em Jesus Cristo, que dá o seu SIM para viver a Aliança com Deus. Olhar para Maria como modelo de consagração e acolher o seu convite para aceitar a Aliança com Deus em Jesus Cristo não esgotam as atitudes dos cristãos para com a Virgem. Assim, a cena importante da entrega do discípulo a Maria e vice-versa (Jo 19,25-27) nos dá o fundamento bíblico de uma relação direta com a Mãe de Jesus, que também explicita o termo “consagração a Maria”. (Pe. Stefano De Fiores, smm). A cena descreve um significado teológico - salvífico que ultrapassa as relações familiares. A expressão com que o evangelista conclui a cena: “E a partir daquela hora o discípulo a acolheu entre os seus bens” (Jo 19,27), trata-se de uma aceitação de fé, análoga à que foi demonstrada para com Jesus (Jo 1,12), implicando abertura e disponibilidade diante de Maria, na sua maternidade. O discípulo recebe Maria entre as suas próprias coisas, entre os dons que lhe provêm do fato de ser amado por Jesus e de pertencer a Ele: recebe-a como Mãe, abrindo-lhe espaço no ambiente vital de fé em Jesus, onde pôs a sua existência. Dessa forma a atitude de fé que recebe Maria na própria existência cristã não pode ser minimizada. E, se se entender por consagração a Maria o reconhecimento filial de sua maternidade dentro da perspectiva aberta pela entrega na cruz, este fundamento é sólido e será vivido de diversas maneiras e expressões ao longo dos tempos, no âmbito da vida espiritual, conforme as circunstâncias. (Stefano De Fiores em Diccionário de Mariologia).

 

2. Um olhar na história da Igreja

Logo no inicio da Igreja, pela interpretação dos Padres da Igreja, Maria é apresentada como CONSAGRADA A DEUS e modelo de dedicação (entrega-doação) ao senhor para todos os cristãos, sobretudo para as virgens. No século III, na dimensão cultual, encontramos a breve oração SUB TUUM PRESIDIUM (sob a tua proteção) quando a comunidade, ameaçada por grave perigo, se refugia confiante sob a proteção da Mãe de Deus. Essa ação é como o primeiro passo para a consagração como a atitude de se colocar sob a proteção de Maria e será a base de futuras consagrações de cidades e nações desse período.

No século VII, Hildefonso de Toledo, na sua obra sobre a Virgindade de Maria, usa a expressão: “Servo da escrava do seu Senhor”, não como um ato de devoção esporádica, mas como atitude permanente de vida. Uma consagração na qual deseja “ardentemente jamais ser excluído do seu serviço”, e “para ser servo devoto do Filho, procuro fielmente o serviço da Mãe”. O serviço de Maria implica o anúncio, o amor, o louvor e a obediência aos mandamentos da Senhora.

No século VIII, em uma homilia sobre a Dormição de Maria, de São João Damasceno, encontramos a expressão: “Nós nos consagramos a Ti”: “Também nós, hoje, nos apresentamos a Ti, ó Soberana Mãe de Deus Virgem; unimos nossas almas a Ti, nossa esperança, como se as prendêssemos a uma âncora totalmente sólida e inquebrantável, consagrando-te nossa mente, nossa alma, nosso corpo, todo o nosso ser ...”.

Na Idade Média, também encontramos os sinais da consagração à Virgem Maria, como realizaram Odilon (Abade de Cluny) e Marinho, irmão de S. Pedro Damião (séc. XI), ao se oferecerem a Ela na qualidade de servos perpétuos. E, mais tarde, no séc. XIII, com a Ordem dos Servos de Santa Maria (Servitas) que se propõe a prestar o serviço ao Senhor mediante a DEDICAÇÃO à Virgem. Dentro da mentalidade da época, era como que um contrato entre o servo que se doa livremente a Maria, reconhecida como Senhora, e lhe presta serviços, obséquios e reverências, recebendo de Maria a proteção. No século XVI temos as Congregações Marianas onde no cerimonial de entrada faz-se um oferecimento a Maria, reconhecendo-a como Senhora e prometendo serviço perpétuo. Ao longo do tempo, as regras comuns vão sofrendo alterações: em 1910 a oblação a Maria recebia o nome de consagração e em 1945, recebeu de Pio XII uma clara elucidação. A partir de 1968 se retira a expressão “consagração a Maria” e se acrescenta “filial amor a Maria”. Assim Maria é apresentada como modelo de colaboração para a missão de Cristo, e a união com Ela é considerada um modo de viver a doação total a Deus.

Ao longo da história encontramos tantos outros testemunhos nas ordens religiosas, nas experiências pessoais de doação a Maria, nas diversas formas e expressões como “escravidão para com a Mãe de Deus”, devoção que se espalhou pela Europa e outras que chegaram a ser condenadas devido aos abusos nessas devoções. Alguns livros que recomendam o uso das cadeias ou correntes, são condenados pelo Santo ofício em 1873, com a intenção de evitar os abusos e de afastar toda e qualquer forma de obrigação constrangedora nas relações com Deus e com Maria. NÃO SÃO PORTANTO ATINGIDOS PELA CONDENAÇÃO OS AUTORES COMO BERULLE, BOUDON E MONFORT, que propõem uma escravidão de amor, voluntária, santa e harmonizada com a revelação.

A consagração a Jesus Cristo por meio de Maria de S. Luis Maria de Monfort representa o ápice de uma tradição espiritual da França pós-tridentina. Em S. Luís de Monfort a consagração é cristocêntrica, respeita a mediação única de Cristo e constitui um caminho para chegar à maturidade espiritual. Ele explica a consagração definindo-a no conceito de consagração ligado diretamente ao Batismo. S. João Paulo II assim o afirma: “A figura de S. Luís Maria de Monfort, o qual propõe aos cristãos a consagração a Cristo por meio de Maria, como meio eficaz para viverem fielmente os compromissos batismais” (RM 48). “A perfeita consagração a Jesus Cristo, pois nada mais é do que uma consagração perfeita e total de si mesmo a Maria; ou, em outras palavras, uma renovação perfeita dos votos e promessas do santo batismo. E’ esta a devoção que ensino” (VD 120).

Por fim, nesse itinerário histórico, olhando para os últimos Papas, vemos que S. João Paulo II fez da consagração à Maria um dos pontos programáticos de seu pontificado – TOTUS TUUS - , desde seu lema da insígnia episcopal aos seus gestos nas peregrinações aos santuários marianos e, em circunstâncias particulares, renovou pessoalmente ou por meio de fórmulas coletivas, a sua  consagração a Maria. Nele vemos convergir pontos de tempos anteriores, como de Monfort e Kolbe, os quais ele utiliza com liberdade, segundo a oportunidade pastoral, mas sem se ligar a uma apresentação estereotipada. S. João Paulo II dedica uma encíclica para tratar da Bem- aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho (Mãe do Redentor). A consagração a Maria com S. João Paulo II chega ao ápice de cunho oficial, como ato de entrega da Igreja e de todo o gênero humano a Maria. No ato de sua eleição, aceita a nomeação em obediência a Cristo e em total confiança à sua Mãe (primeiro discurso).


3. Uma fundamentação a partir do Magistério

E’ importante saber que o desejo de buscar a consagração a Nossa Senhora se fundamenta no encontro pessoal, perseverante com Maria, que supõe confiança, pertença, dom de si, disponibilidade e colaboração efetiva na sua missão segundo o plano de Deus. Esses elementos enriquecem a vivencia cristã hoje, em todos aqueles que buscam a Consagração à Virgem Maria, mas não podemos esquecer as observações do Beato Paulo VI:
Como è bem conhecido, a veneração dos fiéis para com a Mãe de Deus tem revestido formas multíplices, de acordo com as circunstâncias de lugar e de tempo, com a diversa sensibilidade dos povos e com as suas diferentes tradições culturais. Disso resulta que, sujeitas aos desgastes do tempo, essas formas em que se expressa a piedade se apresentem necessitadas de renovação, como substituir os elementos caducos, a serem valorizados os perenes, e a serem incorporados os dados doutrinais adquiridos pela reflexão teológica e propostos pelo Magistério da Igreja. As Conferências episcopais, as Igrejas locais, as famílias religiosas e as comunidades dos fiéis favorecem uma genuína atividade criadora e procedem a uma diligente revisão dos exercícios de piedade para com a Virgem Ssma. Tal revisão se faz no respeito pela sã tradição e com a abertura para receber as legítimas instâncias dos homens do nosso tempo. (Marialis Cultus n. 24).

Jesus é o único caminho para o Pai e Maria é o caminho mais seguro e fácil para chegarmos a Jesus. O que a fé católica crê acerca de Maria funda-se no que ela crê acerca de Cristo, mas o que fé ensina sobre Maria ilumina sua fé em Cristo (CIC 487). Na Virgem Maria tudo é relativo a Cristo e depende d’Ele, expressando assim a característica trinitária-cristológica que é essencial, mas também a característica eclesial.

Deste modo o amor pela Igreja traduzir-se- á em amor para com Maria e vice-versa, pois uma não pode subsistir sem a outra. “Reuniu0se a Igreja na parte superior do cenáculo, com Maria, que foi a Mãe de Jesus e com os irmãos d’Ele. Não se pode portanto, falar de Igreja senão quando estiver aí Maria, Mãe do Senhor, com os irmãos d’Ele ...” (S. Cromácio de Aquileia). A veneração dirigida à bem-aventurada Virgem Maria torna explícito o seu intrínseco conteúdo eclesiológico: isto equivale a dizer lanças mão de uma força capaz de renovar formas e textos (Marialis Cultus n. 28).

Podemos assim falar de consagração a Nossa Senhora como inserção na única consagração a Deus, como reconhecimento de sua missão e dentro da dimensão eclesial. Maria deve ser situada no mistério de Cristo e da Igreja, e a relação vital com ela se insere no amplo movimento de consagração à SSma Trindade, como parte da reesposta existencial ao plano de Deus (ver Rom 12, 1-2 e Lumen Gentium , cap. VIII: a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja, 52-69). A Consagração a Maria nunca deve ser apresentada como uma atitude autônoma, mas sempre dentro do contexto da experiência de Deus; ela não é uma segunda vida espiritual, mas uma nova maneira de vida em Deus. E, ainda, a consagração cristã se dá no Batismo, que comunica a vida filial, une a Cristo glorioso e torna o fiel sacerdote mediante a unção do Espírito. O Batismo representa o ponto de partida para a consagração a Maria. Assim expressava Monfort, apresentando a consagração a Maria como “perfeita renovação dos votos e das promessas do Batismo”. A consagração se torna um modo privilegiado de desperta a consciência batismal e de ajudar no
caminho de fidelidade ao Senhor. Significa deixar-se ajudar pelo exemplo e intercessão de Maria, para encontrar o verdadeiro sentido da vida cristã determinado pelo Batismo.

Como poderemos viver o nosso batismo sem contemplar Maria, a bendita entre todas as mulheres, tão acolhedora do dom de Deus? Ela foi-nos dada como Mãe por Cristo. Deu-a por Mãe à Igreja. Ela mostra-nos o Caminho. Além disso, intercede por nós. Cada católico confia-lhe espontaneamente a sua oração e consagra-se a Ela para melhor se consagrar a Deus (S. João Paulo II, Angelus, 01.06.1980).

A consagração a Maria é um reconhecimento da sua missão. O texto bíblico que ilumina a consagração à Virgem Maria é a acolhida que o discípulo dá a ela. Nas interpretações dessa cena do evangelho joanino, o acolhimento dado a Maria se insere no acolhimento
dado a Jesus pelo discípulo. Quando acolhe a Mãe de Jesus “entre os seus bens”, expressa que entre esses bens está a sua fé e comunhão com Jesus. Assim , a relação com Cristo se prolonga na relação nova do discípulo com Maria; acolhe Maria em obediência a Cristo na sua vida de fé. A consagração é sempre a Cristo, a Deus- Trindade, realizada no acolhimento dado a Maria em nossa vida, entre os nossos bens (vida espiritual), a exemplo do discípulo amado. O Papa Francisco evidencia essa dimensão eclesial da fé cristã quando diz: O batismo recorda-nos que a fé não é obra do individuo isolado, não é um ato que o homem possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial transmite o dom de Deus: ninguém se batiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência . Fomos batizados. (Lumen Fidei 41).

Assim, a consagração a Deus não é um ato individual, mas todo cristão é consagrado como membro da igreja, povo de Deus que lhe pertence e para ele deve viver. Dessa forma, o título de esposa e virgem atribuído à Igreja indica que ela deve corresponder ao amor de Cristo pelo sim da fé e a consagração a ele de toda a sua vida. O exemplo dessa vocação encontramos em Maria, pelo seu sim dado ao Senhor. O cristão que se consagra a Jesus Cristo, com a orientação materna e o exemplo de Maria, sabe que faz emergir no seu gesto a natureza íntima da Igreja, povo consagrado ao Senhor e confiado por Cristo à Mãe na pessoa do discípulo amado. Essa relação implica também a comunhão, a fraternidade e a unidade desse povo.

 

4. A consagração a Nossa Senhora em nossos dias

Em nossos dias, dadas a velocidade e a facilidade das informações, se proliferam muitas expressões pertencentes a determinadas regiões que, pelo processo da globalização, chegam a todos, impondo um olhar crítico e uma revisão, como já apontado pelo Beato Papa Paulo VI, para uma autêntica compreensão di significado da consagração a Maria. O DIRETORIO SOBRE A PIEDADE POPULAR E A LITURGIA , da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, expressou-se sobre a consagração da seguinte forma:
... À luz do testamento de Cristo (Jo 19,25-27), o ato de “consagração” é, de fato, reconhecimento consciente do lugar especial que Maria de Nazaré ocupa no mistério de Cristo e da Igreja, do valor exemplar e universal do seu testemunho evangélico, da confiança em sua intercessão e na eficácia da sua proteção, da múltipla função materna que ela exerce, como verdadeira mãe na ordem da graça, em favor de todos e de cada um de seus filhos. Entretanto, nota-se que o termo “consagração” é usado com certa amplidão e impropriedade: “Por exemplo, diz-se consagrar as crianças a Nossa Senhora”, quando, na realidade, se entende apenas “colocar os pequenos sob a proteção da Virgem e pedir para eles a sua materna bênção”. Compreende-se também a sugestão de utilizar no lugar de “consagração” outros termos, tais como “entrega”, “doação”. De fato, em nosso tempo, os progressos realizados pela teologia litúrgica e a consequente exigência de um uso rigoroso dos termos sugerem que se reserve o termo CONSAGRAÇÃO à oferta de si mesmo, que tem como meta Deus, como característica a totalidade e a perpetuidade, como garantia a intervenção da igreja, como fundamento os sacramentos do batismo e da confirmação.

Parece-nos que a chave de leitura para essa compreensão hoje, também justificada pelas expressões usadas pelos últimos Papas, seja a do acolhimento. Assim, o acolhimento dado a Maria pelo discípulo amado (Jo 19,27) é a expressão de receber e acolher Maria com toda a riqueza de significado deste texto bíblico. A conclusão a que chega STEFANO DE FIORES é: “Acolher Maria significa abrir-se a ela e á sua missão materna, introduzi-la na própria intimidade espiritual onde já se acolheu Cristo e os outros dons de sua fé”; “o ideal do consagrado consiste em chegar a uma identificação com Maria, de modo que fique habilitado para a comunhão íntima com o Pai, Filho e o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, para o amor cordial e criativo junto ao próximo”. Santa Teresa do Menino Jesus dizia: “Apresentam-nos Nossa Senhora como inacessível, deveriam propô-la como imitável”. Dessa forma, ao propor a Virgem Maria à imitação dos fiéis, a igreja não a apresenta como modelo pelo tipo de vida que ela levou ou por causa do ambiente em que viveu, mas porque, dadas as condições concretas de sua vida, aderiu totalmente e responsavelmente à vontade de Deus e soube acolher a sua palavra e coloca-la em prática, animada pela caridade e pelo espírito de serviço, apresentando-se , assim, como a primeira e mais perfeita discípula de Cristo.

O Papa Francisco, na visita ao Santuário de Aparecida, por ocasião da JMJ, disse: “A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: Mostrai-nos Jesus. É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria”. Então, viver a entrega (consagração) a Nossa Senhora é assumir o modelo de Maria e, partindo das palavras de Bento XVI, como discípulo, buscando inspirar-se nos ensinamentos de Maria, procurando acolher e guardar dentro do coração as luzes que por mandato divino ela nos envia do alto.

5. O gesto de entrega ou doação (consagração) à Virgem Maria

Pensando nas condições para realizar este gesto de confiança na Virgem Maria, nas suas variedades de formas, é preciso destacar a necessária preparação. Pois, como toda tarefa requer uma ação planejada para seu bom êxito, não pode ser diferente com este gesto de devoção. Requer também, por parte daqueles que vão realiza-lo, uma preparação amadurecida, dado o significado do ato para ser expressão de um compromisso assumido para desempenhar uma tarefa específica na comunidade eclesial.

O gesto de entrega não pode ser improvisado, deve seguir um caminho de aprofundamento de significado, de oração, das  exigências da relação pessoal- comunitária, levando sempre em conta a consagração primeira e fundamental do batismo e as exigências atuais do testemunho da vida cristã. Um testemunho que leve em conta aquilo que é fundamental e essencial, não deixando se desviar por elementos secundários e superficiais do momento. Um risco sempre presente na sociedade hodierna, influenciada pela ideologia mediática:

Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário , que chegue realmente a todos, sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa (EG 35).

Evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro, acerca da autêntica doutrina da Igreja, os irmãos separados ou quaisquer outros. E os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus, e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes (Lumen Gentium 67).

Embora apresentando as características de dom total e perene, ela é apenas analógica em relação à consagração a Deus; deve ser fruto não de emoção passageira, mas de uma decisão pessoal, livre e madura, no âmbito de uma visão exata do dinamismo da graça; deve ser expressa de modo correto, numa linha, por assim dizer, litúrgica: ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, implorando a intercessão gloriosa de Maria, à qual alguém se entrega totalmente e fim de observar com fidelidade os compromissos batismais e de viver na atitude filial em relação a Maria; deve ser realizada fora da celebração do Sacrifício Eucarístico, pois trata-se de um gesto de devoção não assimilável na Liturgia: de fato, a entrega a Maria se distingue substancialmente de outras formas de consagração litúrgica (Diretório sobre a piedade popular 204).

Nos diversos momentos em que fazemos o ato de confiança à Virgem Maria, na recitação do Rosário, ou na oração do ANGELUS, sempre será uma forma de recordar e renovar a nossa consagração primeira e fundamental a Deus pelo Batismo. A piedade popular é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de sentir-se parte da Igreja e uma forma de sermos missionários. Nos dias atuais, urge retomarmos a nossa identidade cristã fundada no seguimento de Jesus, em virtude da graça do batismo, por meio do qual:
Cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo e missionário. Cada um dos batizados da própria função na igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações. A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados (EG 120).

Cada batizado é chamado a assumir seu lugar na Igreja como “sujeito eclesial”. A noção de sujeito remete à noção de criatura distinta do Criador, chamada a dialogar com Ele e eticamente responsável pelo destino de si e da história, como membro de um Povo e na perspectiva do futuro prometido por Deus. Isto também exige o equilíbrio entre o eu e o outro. Cada cristão é um portador de qualidades vivenciadas na vida comum e cresce quando assume essa condição social. O leigo é o cristão maduro na fé, que se dispôs a seguir Jesus com todas as consequências dessa escolha, superando o infantilismo eclesial. O sujeito cristão se realiza como pessoa na comunidade cristã. A pessoa é uma unidade de consciência e de ralção, cujo modelo é a própria pessoa de Jesus Cristo.

Essas ideias nos ajudam a compreender a importância de ser “sujeito eclesial” e deixar a postura de comodismo, de conservação, sair da zona de conforto e assumir o protagonismo da fé eclesial, missionária, de comunhão e solidária. Que assim permaneçamos na escola de Maria, totalmente consagrados ao Senhor como membros de seu Povo Santo e participantes de suas promessas. E certos de que toda formação de mentalidade caminha com vagareza; não esperemos resultados rápidos, mas precisamos iniciar um processo de formação e iniciação ao autêntico culto à Virgem Maria:

Se se levantam os ventos das tentações, se te feres contra osc escolhos das tribulações, olha para a estrela, chama por Maria ... Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensa em Maria, invoca Maria. Ó Maria, fica sempre em meus lábios e em meu coração (S. Bernardo)